Entrando numa capa

by - terça-feira, setembro 25, 2012

Oi, geeeeente!
por ~ PilarRojo
Num dos meus artigos citei Macunaíma.  E quando pensamos nesta obra, não podemos esquecer a questão da identidade cultural. Acredito que alguns de vocês saibam das minhas resenhas no blog Literatura de Cabeça. E quem não sabe já está avisado! Além, também, das resenhas que faço para o meu blog...
Isso significa que leio bastante. Leio muitos autores nacionais, o que me deixa numa posição privilegiada e, em muitos casos, numa situação de irritabilidade. Como já estava na onda de refletir sobre identidade, também tenho refletido sobre gêneros. Sendo mais precisa, sobre o gênero feminino.
Deixa-me explicar, antes que você fique entediado com o texto, o que tem alimentado minha rabugice. Como disse, leio muitos autores nacionais, e percebo que, na literatura nacional, existe mais europeia ou japonesa tísica usando Dior do que brasileira. Fala sério, todo livro, atual, que leio as mulheres são magras ‘perfeitas’ com olhos claros, loiras, altas, pernas torneadas e sempre são a mais bonita da festa...
Primeiro, eu não tenho nada contra as loiras, ruivas, magras e bem vestidas. Adoro moda e pluralidade cultural. Mas convenhamos que se eu não li ainda num livro nacional, atual, a valorização da mulher pela sua raça, a crítica negativa virá montada em The Flash.
Eu não nego o fato de que no Brasil existem mulheres loiras e com características europeias fortes. Mas é só isso que existe aqui? Por que até o momento eu não li nada que a protagonista seja negra, mulata, morena, tenha cabelo crespo, seja cheinha ou até gordinha. Será que todas as leitoras deste blog são brancas e magras? Todas têm cabelo liso? Será? Lógico que essa constatação não é geral, mas tem um numero gritante de autores que desconsideram a nossa identidade.
Eu sou uma amarela com boca e bunda de negra, cabelo europeu, acima do peso, gênio diabólico e com raízes indígenas bem fortes. Não uso o vestido de marca que deixam as mulheres dos livros perfeitas, estou mais para uma alternativa. Onde eu entro na literatura atual? No ‘você é sujeito inexistente’?
“Branca para casar, preta para trabalhar e a mulata para fornicar”: assim a doxa patriarcal herdada dos tempos coloniais inscreve a figura da mulher presente no imaginário masculino brasileiro e a repassa à ficção e à poesia de inúmeros autores.” Texto de Eduardo de Assis Duarte

A moda, agora, é que além da cara da mulher nacional ser europeia, ainda temos que suportar a mulher brasileira com cara de made in Japão. Mas por que não podemos ser made in brasileiras? E tem mais, além de características puramente europeias, ainda somos mulheres frágeis e burras. Que para resolver os problemas só com um homem forte, musculoso, branco, alto, made in ator de Hollywood. Que vem montado num cavalo branco e não tem mau hálito ao acordar. Nunca tem pneus, nunca falta dinheiro, nunca é imperfeito.
Eu acredito e respeito a liberdade de expressão. Sei que a literatura está livre de qualquer tabelamento. Mas por que a literatura nacional não pode respeitar a nossa identidade? Autores nacionais olhem a sua volta. Conheçam o seu povo. Vivam a sua realidade. A Europa já tirou muito de nós, eu não vou aceitar que roubem a minha identidade de mulher brasileira.
E só para que vocês saibam como isso repercute na sociedade, estava vendo um debate numa aula de Geografia e ouvi quando alguns alunos afirmaram que os únicos negros que existem no Sul do país são turistas. Também não existe índio. Só pessoas loiras, altas, cabelos lisos, olhos claros. Será que todas as mulheres do Sul são primas da Gisele?
Sentiu o drama?
Eu não sou ingênua em acreditar que a literatura é a única a contribuir para o nosso ‘belo quadro social’, a grande mídia televisiva e outros também têm forte contribuição, mas a literatura tem sua parcela de culpa, sim. Mas nem tudo está perdido, pois basta olhar a capa do livro da Elisa Lucinda ‘Parem de falar mal da rotina’ e muitos outros.
Não dá pra colocar uma ‘capa’ na cultura brasileira e fingir que ela não existe, até porque muita gente veste a camisa vermelha. Não dá pra dizer que quem faz isso é preconceituoso, não se pode julgar simplesmente, mas devemos refletir sobre aquilo que produzimos para o mundo...
Mais uma vomitada literária de
Lilian Farias
@liligarota

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30 comentários

  1. Concordo plenamente com você. Não sei por que eles não escrevem sobre a mulher que está lendo o livro. Uma mulher normal com estrias, celulites, gordurinhas a mais. Não entendo esse preconceito deles. Até parece que só as mulheres tido como bonitas têm direito a serem amadas.

    Um leve bater de asas para todos!!!!!!!!!

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  2. Gostei muito do texto. Se a verdade da mulher brasileira não for retratada nos livros hoje, os que lerão nossos livros amanhã terão uma visão distorcida da mulher contemporânea. Não somos fúteis e vazias, mas também não somos perfeitas. É tempo de retratar isso.

    Beijos,
    http://pitadadecultura.blogspot.com.br/

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    1. ótima colocação... os olhos do futuro pode não nos enxergar!

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  3. Muito bom o texto e completamente verdadeiro. E acho que isso nem acontece só com a mulher brasileira mesmo, que é muito mal representada sim; mas, também, quem disse que toda europeia ou americana, sei lá, é completamente perfeita, sensível e tudo isso? Caramba, estamos numa época onde atingir a considerada perfeição é praticamente impossível: o que mais temos são mulheres acima do peso, de classe média (ou seja, sem dinheiro pra comprar roupas de grife), mas que não são menos fascinantes apenas por isso.
    Entendo que os autores sempre querem retratar algo a mais do que o mundo nos traz, então acho que é por isso que essas mulheres existem nos livros/filmes. Mas, representar uma pessoa REAL, que possa aparecer aqui no nosso mundo, não seria nada mal também.

    livroscafeepensamentos.blogspot.com

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    1. Pois é.. A coisa vai por onde vc descreve mesmo!

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  4. Que legal esse post, achei bastante interessante e realista. Sucesso.

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  5. Amei. Vc deu voz a muitas pessoas que sentem isso e não expressam, outras que até levam a discussão adiante.
    Isso me incomoda demais. Apesar de ser descendente de alemães, sou brasileira. Quero ver meu povo identificado na literatura nacional. Quero ver a mulher comum nas revistas. Quero ver a gordinha, a baixinha, a negra e a mestiça tb presentes nos comerciais de tv.
    Adorei qdo a Dove fez uma campanha pra resgatar a beleza de cada mulher, com suas particularidades, suas imperfeições, suas características. Chega de padronização!
    Não suporto mais chegar numa festa e ver todas de cabelo chapado, vestido 'periguete' e saltão. São todas fabricadas em série!
    Como a questão é ampla e mais profunda do que parece!

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  6. Achei o post muito interessante ! Adorei a escolha da imagem ! ^^

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  7. Se a gente tem que se identificar com o texto, porque não deixar de lado os contos de fadas e retratar o dia a dia... acredito que um livro que se enquadre na vida do leitor é muito mais bem aceito que um conto de fadas como branca de neve, por exemplo que retrata fatos absurdamente fora da nossa realidade.
    Em contrapartida será que não precisamos sair um pouco da realidade cruel em que vivemos?
    Será que o erro não é nosso? por exemplo, ao invés da empreguete mocinha ser a bela Rosário fosse a feiosa Socorro iríamos aceitar e ver a novela????

    Beijos
    Chrys

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  8. Onde assino?!?!
    Como sempre você arrasa nos argumentos usados. Muito bem embasada defendendo sua ideia sem ser grosseira.
    Parabéns mais uma vez!!!

    @_Dom_Dom

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    1. Fofo. Diz pro Bruninho que mando um xerão pra ele. Em Sergipe é mais complicado de vê-lo... ^^

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    2. Pode deixar que assim que encontrar com ele, dou seu recado!!!

      @_Dom_Dom

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  9. Oie,
    ah nem sempre os naconais as mulheres são assim, mas concordo que em muitos são :(
    adorei seu post :)

    bjo
    http://blog.vanessasueroz.com.br

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    1. Ainda bem que nem todos são assim, né? Um luz no fim do túnel! ^^
      Valeu pelo comentário!

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  10. Vomitada literária é ótimo!E preciso abrir a cabeça e aceitar os mais distintos estereótipos, até porque a maioria das pessoas nao se encaixam nele.
    Bj

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  11. Sou sua fã, já disse isso né???rs
    Seus textos sempre dizem o que muitos de nós pensam,e não tem coragem ou até, não querem mesmo dizer. Sentem e se calam.
    Acredito que se na moda, tudo é voltado para as magrinhas, loiras e de olhos claros, a literatura não ia seguir por outro caminho.
    Até que na minha opinião, qdo isso acontece,tipo da protagonista ser feia ou fora dos padrões que a sociedade decretou, a identificação fica mais natural,mais real.
    E não falo isso apenas da literatura nacional não, isso tinha que ser estendido a literatura mundial. Somos humanos...não produtos :)
    Pra variar, adorei tudo!

    Beijo

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    1. Vc é lindona. Sempre marcando presença lá no blog, né? ^^

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  12. Tenho dado sorte e lido livros em que as mulheres são bem diferentes uma das outras (até nos livros nacionais) por isso não tinha pensado na questão que você levantou sobre o gênero feminino brasileiro. Refletindo sobre o assunto, concordo com você. Os autores tem que escrever sobre coisas com as quais nos identifiquemos, para quando o livro for levado para outros países as pessoas que o lerem possam conhecer um pouco mais sobre os brasileiros, por exemplo.

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  13. Sou branquela de cabelo liso e gordinha hahaha Realmente, os livros colocam muito esse tipo de biotipo nas personagem que até chega a irritar. Concordo com você, tem que dá uma diversificada e ter orgulho das características da mulher nacional. ^^
    Adoro esses seus textos ^^

    http://monstroc.blogspot.com.br/

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  14. Eu concordo quanto a essa falta de identidade que muitas vezes nós encontramos nos livros.

    Inclusive, sempre que tentam retratar uma brasileira nos livros estrangeiros, acaba ficando aquela coisa bem caricata.

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  15. Nunca tinha pensado nessa questao oO
    Comecei a ler livros nacionais, realmente, agora. Entao não tenho muita base para opinar a respeito, mas acho que a tendencia é usar a literatura pra representar mulheres que voce gostaria de ser, pelo menos em algum aspecto(tenho o habito de fazer isso, mas minhas personagens sempre tem cabelos castanhos)
    Mas concordo que é muito mais interessante para nos lermos sobre mulheres "normais", mulheres reais.

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  16. Realmente isso é trágico. As mocinhas são todas loiras de olhos azuis, branquíssimas e magérrimas.

    Pra piorar todas, apesar das características que as tornam lindas tem problemas terríveis de auto estima e quase sempre se acham normais.

    São poucos os autores que valorizam a diversidade étnica e ressaltam ela em suas obras.
    Os livros são, como todos os veículos de comunicação, uma forma de disseminar cultura e informações e acho que cada vez mais deveria haver a preocupação de mostrar que as pessoas não precisam seguir o padrão europeu para serem bonitas.

    Também deveria ser demonstrado muito mais que as pessoas tem que ter orgulho de ser como são, e não vergonha.

    Thais Vianna
    @dathais
    dathais@hotmail.com

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  17. Falando o que eu acho, somos antinacionalistas e deslumbrados com o que é de fora, simples assim. Preferimos ler sobre uma cultura que provavelmente nunca conheceremos do que nos aprofundar na nossa, e isso está se refletindo nos autores nacionais. Acredito que dos 13 livros nacionais que li esse ano, apenas 1 era sobre o Brasil. Não podemos reclamar daquilo que não oferecemos, então, se depois falarem que a maioria prefere ler sobre cultura de fora não podemos reclamar.

    Bjus, @dnisin
    http://diamanteliterario.blogspot.com.br/

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  18. Nossa esse texto caiu como uma luva agora para mim, acabei de chegar do encontro do clube do livro, e uma amiga falou isso mesmo, que na literatura a gente não vê gorda, feia, com celulite, sempre são perfeitas, e isso não existe néh? E na literatura nacional deveríamos encontrar traços do nosso Brasil e não apenas coisas dos países de fora néh, já que temos que valorizar o autor nacional, eles em si tbm tem que valorizar o nosso Brasil.

    BjOs!!!!

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  19. nunca li este livro q vc disse , macuaima ne ? kkk , ja ouvi falar mais nunca lii

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  20. Esse seu post, Lilian, me fez pensar bastante no livro "O Sonho de Eva". Li-o há mais ou menos 2 meses, e após a leitura do mesmo li algumas resenhas que expressavam o mesmo estranhamento que o meu: Eva é perfeita! Quem já leu esse livro sabe do que estou dizendo. Onde ela vai, ela hipnotiza todos, até mulheres. O sonho de Eva é um livro nacional... Tudo bem, a personagem contém traços brasileiros (bem citados, até), porém ela é perfeita, tudo nela é maravilhoso. Realmente, todos os livros as mulheres são perfeitas, (se não fisicamente, são psicologicamente). É claro que não se deve haver muitas personagens com características "menos bonitas" (no ponto da sociedade), se não acabaria passando uma imagem que nós, mulheres brasileiras, temos beleza inferior... já pensou: todos os livros nacionais citando mulheres com características negativas? Passaria uma imagem ruim da mulher brasileira.. afinal, não somos perfeitas (assim como qualquer uma gringa), mas temos nossa beleza, e nossas qualidades. Porém, de fato, deve haver uma maior identidade!

    Ótimo texto, Lilian.

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  21. Lilian, mais uma vez repito: AMEI o seu texto, na verdade gosto de todos.
    Acho que é porque eles são tão bem escritos e tudo que você fala é algo tão real e que eu penso que por isso me identifico.
    Os autores tem que mudar essa ideia de que mulher só serve se for a do esteriótipo europeu: loira, magra e olhos verdes. Sério que todas são assim? Até parece...
    Estou longe de ter essas características, acho que tá faltando um choque de realidade.
    Vamos valorizar as mulheres brasileiras!

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