Conto: Broken

by - quarta-feira, agosto 28, 2013

Olá pessoal!

Vou deixar aqui hoje mais um conto meu (tentando deixar a timidez de lado ainda...) Espero que gostem ;)


Broken


Passo por passo, e a vida continua seguindo. Ou somente sejam meus pés afundando na areia sem uma direção certa a seguir. É como se houvesse outra pessoa dentro de mim, eu estava no piloto automático.
Os ventos chicoteavam minha pele, e embora eu tentasse colocar meus braços ao redor do meu corpo, o frio não passava. Parei, e olhei para o mar a minha frente. O que seria de mim após essa noite? Sentei naquela areia fofa, e depositei ali a garrafa de vodka que trazia comigo ao meu lado. Eu não estava bêbada, ainda não. A bebida entrava pelo meu corpo, mas não fazia efeito.
A ventania aumentara e o mar parecia revolto, enxuguei algumas lágrimas do rosto, e continuei a olhar para aquela imensidão, ela me chamava, me seduzia. Queria envolver meu corpo como um amante noturno, me consumir, possuir, até que nos tornássemos um só. O toque gélido da água em meus pés não me assustou, a dor era reconfortante. Andei mais, me envolvi mais, era isso que eu deveria ter feito com a minha vida, arriscado mais, vivido mais. E agora essa imensidão toda está tomando conta do meu ser, ensopando meus cabelos, minha roupa, não quero respirar, não posso respirar.
Não vi nada, eu era da noite e a noite era minha.
Um fôlego, e mais um. Ar, era ar, eram meus pulmões tentando sobreviver traidores.
Mais ar, e de repente uma dor. Não queria abrir os olhos, mas algo ou alguém me segurava, pressionava o rosto próximo ao meu rosto, tocava meu pulso, se abaixava perto do meu coração. Abri meus olhos, a vida mais uma vez ganhou.
A primeira coisa que vi foi à lua, ela estava tão linda. Queria poder tocá-la, e depois ele. Não consegui ver sua face.
- Hey, está tudo bem.
- Vá se danar.
Foram às únicas coisas que consegui dizer, e depois disso tossi, tossi tanto que cheguei a vomitar ao lado dele. Levantei-me e tentei seguir andando. Ele me segura meus braços, e agora quando me viro posso ver melhor sua face.
Uma beleza diferente é tudo que consegui ver. Olhos verdes profundos, lábios carnudos, queixo quadrado, transmitia um ar de superioridade, sobrancelhas bem desenhadas, será que ele faz as sobrancelhas? Cabelo preto bagunçado e molhado. Ele todo estava molhado, sua calça branca estavam agarrada no quadril, pernas, sem camiseta as gotas d’água desciam de seus cabelos, desciam pelo pescoço, peito, abdômen. Parei de olhar.
Ele me olhava de braços cruzados, estava bravo, pelo menos parecia bravo.
- Ta, ok, desculpa tá? Obrigada! Muito obrigada por salvar a merda da minha vida, te devo essa cara.
Ele apenas sorriu, seus olhos pareciam brincalhão, e voltou a ficar sério novamente, cruzando os braços na frente do peito. Era muito mais alto que eu.
- Já disse obrigado, o que mais você quer? Que saia correndo, chamando todos para dizer que você me salvou? Que você, pessoa que nem sei o nome, é meu herói? Oh! Vejam todos! Eu tenho um herói – Peguei a garrafa de vodka do chão e tomei um gole, que desceu queimando garganta abaixo, não consegui manter a pose, comecei a tossir e sentir falta de ar de novo, cai sentada na areia.
- Calma garota, esses adolescentes rebeldes... Respira...
Ele colocou as mãos nas minhas costas e respirei, respirei, voltei ao normal e não sei ele conseguia ver, mas eu estava muito vermelha.  Engoli o orgulho e perguntei:
- Qual seu nome hein? Ah, só para constar, não sou adolescente, tenho 20 anos e não sou virgem também. – Tentei soar irônica, mas acho que aconteceu o contrário.
Ele riu uma risada gostosa.
- Sou Daniel, e você?
- Ana.
Ele ficou um tempo me olhando, e incrivelmente eu me sentia bem melhor agora.
- Então resolveu dar um mergulho a noite, com roupa e tudo e não sabia nadar?
- Não sei direito, não sei o que queria e muito menos o que quero agora – Por que eu estava dizendo aquilo? Ele era somente um estranho.
- Hum interessante.
- Alías, onde você estava? Eu pensei que estava sozinha, não havia ninguém aqui por perto.
- Estava por ai – levou os braços para trás, como eram fortes, e se apoiou neles olhando par ao céu.
- Você é um tarado que estava querendo ver mulheres nuas na praia à noite?
- Talvez sim.
 - Bem, você não me deixou morrer, então não deve ser tão mau assim.
Daniel apenas me olhou, mas ainda assim fiquei pensando de onde ele havia saído. Ele não estava ali na praia e nem no mar, eu não o havia visto.
- Você queria se matar – Ele me olhou com olhos gélidos, uma expressão fria no rosto.
- Não sei se essa é a palavra, talvez seja apenas acabar com um sofrimento.
 - Você acha que as coisas podem se resolver assim?
- Talvez – me irritei, quem ele pensa que é para me dar sermão agora – Escuta aqui Daniel, não sou criança, não devo nada a ninguém, a vida é minha e faço com ele o que eu bem entender.  Agora não me venha com essa agora de anjo salvador da pátria, você não me fez um favor, ao contrário, só adiou o que será um dia inevitável.
As lágrimas voltaram de novo, chorei ruidosamente, e funguei, sem vergonha nenhuma. Daniel se aproxima, levou uma mão ao meu rosto, e passou o polegar por uma lágrima minha. Olhos verdes com olhos verdes. Senti-me pequena perto dele.
Ele se aproximou mais, estávamos quase nos tocando, e internamente eu sabia que queria tocá-lo. Daniel levou uma das mãos ao meu queixo o erguendo delicadamente e por um instante encarou meus lábios. Já estava quase fechando os olhos, ficando nas pontas do pé quando ele disse:
- Desculpe – Daniel me disse, como um sussurro.
- Que foi? Fiz alguma coisa? – Levantei-me também e tentei me aproximar.
Ele se virou, me olhou nos olhos mais uma vez, uma expressão de tristeza em sua face, como se envelhecesse dez anos em menos de um minuto.
- Não podemos, desculpe.
- Por quê? Somos maiores de idade, não estou entendendo.
Ele pousou sua testa na minha, respirou profundamente, e me deu um beijo rápido no rosto. Afastou-se e me disse:
- Não posso te explicar – Ele começou a andar.
- Espere! Podemos nos ver novamente, talvez outro dia?
Ele se afastou e olhando-me com aquele ar de superioridade novamente me disse:
- Estarei por perto quando você resolver acabar com a sua vida novamente – Lá estava o Daniel irônico novamente. Um ar debochado no rosto.
- Por favor...
- Sonhe comigo Ana, apenas sonhe...
Abaixei a cabeça envergonhada, que humilhação, o que deu em mim? Era um desejo mais forte que eu.  E que droga de resposta era aquela? Fiquei totalmente confusa, ou era a vodka fazendo efeito? Quando levantei a cabeça ele não estava mais ali, sumira misteriosamente de novo.
Olhei para o céu, e vi a imagem mais linda da minha vida. Não sei o que era, mas tinha asas lindas, e voava... Voava em direção à lua. Então meu coração parou.
---
Naquela noite, sonhei, mas dessa vez não eram os sonhos sombrios e nem as imagens de minha infância. Era um anjo, um lindo anjo de olhos verdes e pele morena. Não quis mais acordar, dessa vez nunca mais.

Escrito ao som de "My heart is broken – Evanescence"

Se o pessoal gostar, posso pensar em uma continuação ;)
Conto escrito por mim! Proibida cópia ou reprodução.

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6 comentários

  1. Gostei!
    Onde solicito um anjo da guarda desse tipo? Rsrsrs.

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  2. curti demais! ai que lindo, deu até umas lagriminhas no meu olho, tipo que lindinho! tem que ter continuação quero que o Daniel possa ter um momento mortal!
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  3. Amei, curti, copiei e arrasou!!! E claro que quero continuação...
    O.B.S.: copiei num caderno onde guardo meus textos preferidos.

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  4. Muito lindo, realmente. Você escreve muito bem, eu vi todas as cenas na minha cabeça. Quero muita uma continuação *-*

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  5. Muito bom *-* também quero um anjo da guarda desses...

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  6. Muito massa esse conto. Você sempre nos brindando com textos maravilhosos, hein?!?!
    Parabéns, Dai!!!

    @_Dom_Dom

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Blog no ar desde 08/11/2011

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