As cartas de um jovem solitário: minha pequena Ártemis!

by - quinta-feira, junho 05, 2014




Por Neialbert Fontes

Lembro-me dos meus onze anos, quando conheci pela primeira vez o brilho de um olhar. Eram seus olhos diante dos meus, entusiasmados com a descoberta do feitiço lançado sobre nós dois. Ali estava escrito o primeiro ato do que eu chamaria de espetáculo sobre a luz da lua. Ali estava a descoberta do primeiro amor. E o que é o amor? Naquele instante, era a totalidade de nossa existência! Ao tocar tuas mãos, o arrepio na espinha parecia imobilizar os meus lábios a ponto de se quer dizer uma palavra. Mas talvez, nem precisasse, visto que o olhar vibrante em teu rosto parecia entender o que estávamos sentindo naquele instante. Então, simplesmente, de mãos dadas, permanecemos em silêncio, contemplando através dos olhares, nossos rostos em paralelos cada vez mais próximos, até que, como uma brisa interrompendo o calor das almas, teus lábios se juntaram aos meus. Ali fora o nosso primeiro beijo. A nossa primeira conquista! E a magia em teus lábios curou a paralisia momentânea dos meus gestos, fazendo-me rir do inesperado. Não seria exagero da minha parte exigir de mim mesmo que acordasse, pois aquilo que estávamos vivendo era como um sonho. E ainda sonho com esse momento todos os dias. 

O seu sorriso permanece intacto através dos tempos que perante a nós se foram. Embora os anos se passara, eu ainda me encanto por sua inocência. Como eu queria que estivesse aqui neste instante e pudéssemos repetir cada lance. Os meus dias desde que a conheci, mudaram da água para vinho, como uma sombra confortante diante do sol no deserto da minha alma. O toque suave das tuas mãos revestidas em seda, acariciavam-me e neste instante, me sentia seguro em seu colo, ao mesmo tempo em que me sentia um herói, quando abraçava-me com tamanha força, que sem mais fôlego, relaxava em meus braços, como se deitam os amores após a dança. Viver contigo se tornara cada vez mais que um desejo, quase uma necessidade, porque eu contava as horas para que o dia amanhecer e eu pudesse mais uma vez, começa-lo em sua companhia. 

Nossa simetria de sentimentos era tão grande que estava completamente explícita aos olhos alheios. Era impossível olhar-nos, sem enxergar a beleza de um sentimento puro entre duas crianças, que jamais seriam as mesmas a partir dali. Os jogos já não tinham tanta graça, as brincadeiras passavam-me tão despercebidas, porque tudo que eu mais pensava estava a minha frente, sorrindo freneticamente para mim e tudo que eu mais queria era beija-la novamente e mais outra vez, outra vez, outra vez... não mais parar. 

A tua voz firme, simbolizava a agudez da tua mente, que de tão nova me surpreendia pela maturidade dos pensamentos. Era de um ano a menos que eu, mas de uma ação segura em cada ato e gesto. Não titubeava a frente de ninguém. Era autoritária em alguns momentos e em outros, condescendente. Os cabelos nos ombros, tão bem vistosos, contrastavam com seus olhos negros e brilhantes, ao abrigo de sobrancelhas bem desenhadas e naturalmente de pontas bem alocadas, na extensão de um nariz pequeno, sobre lábios rosados, formando uma boca pequena, mas com um sorriso imensamente contagiante. 

Tua aparência esbelta, lhe permitia a adoração de nossas vistas, já que toda e qualquer roupa que vestira, lhe proporcionava um ar de elegância, não importando a simplicidade de cada vestimenta. Eu realmente estava diante de uma pequena Deusa e como um súdito leal, inclinava-me ao teu peito para receber o teu abraço seguido da benção do beijo. O nosso romance astral mudava de cenário sempre e era impressionante como éramos felizes representando o novo de tudo que estávamos sentindo, sem medo do que aquilo poderia nos causar além. E fomos muito bem e adiante, até que chegou a hora do partir. Parecia impossível que acontecesse, mas não foi. 


Toda aquela magia que sentíamos um pelo outro, teve que ser interrompida contra nossa vontade. Era a hora de irmos cada um para o seu canto. Você tinha que voltar de onde veio e eu o mesmo. E o pior que tínhamos apenas pouco mais que dez anos de idade, o que nos impedia de mantermos o contato de forma independente. Nós dependíamos de nossos pais para que pudéssemos nos ver outra vez. E ali foi o nosso fim. 

Nos encontramos ao acaso e ao acaso o desencontro. Se ali eu conheci o amor, passei a conhecer também a sua dor. Foi o primeiro golpe que a vida me deu, quando eu pensei estar voando. Foram dias terríveis na tua ausência onde eu encontrei o refúgio nas canções dentro da noite escura. Cada uma que ouvia, pensava em você de uma forma idealista e desta vez, torcia para que o sol não saísse, enquanto o escuro acolhia a minha dor. Nada mudava ou me fazia rir, exceto, quando lembrava do teu sorriso meigo e envergonhado, toda vez que eu a encarava como minha dona. Os dias foram passando lentamente, até que o coração se acostumou com a amargura da sua ausência e em teu lugar, eu pus a música como uma motivação. Eu que a poucos dias conhecia o amor, em poucos, também, conheci a dor... e não fui mais o mesmo depois disso.

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7 comentários

  1. Olá moço Neialbert
    Eu sei que já dei minha opinião sobre seu texto, mas quero fazê-lo novamente... u.u kkkk
    Seu texto foi leve, puro, com aquele toque de saudosismo. O primeiro amor é inesquecível, o primeiro beijo, aquela primeira vez de ter os sentimentos a flor da pele, em que um olhar, um toque nas mãos, tinham grandes significações. Era um motivo a mais para ir à escola, esperar o sinal tocar, dar aquela olhadinha de canto para ver se ele estava ali também. E a simples frase "eu gosto de você" já fazia o coração acelerar. Que saudade! Porém claro, ai conhecemos também as primeiras decepções, as primeiras lágrimas da dor do amor caem, pensamos que nunca vamos ser capazes de amar novamente... ah doce encanto da inocência.
    Hoje como adultos passamos por dores constantes, já amamos, desamamos, apaixonados e desapaixonamos incontáveis vezes, mas o primeiro amor marca e não esquecemos porque ele é quem nos apresenta a face mais amarga desse sentimento, assim como a mais bela. São duas faces de uma mesma moeda jogada ao alto no destino que a única certeza é: não importa o lado que cair, você viverá as duas metades. Antes não sabíamos nomear o que sentíamos, era um “gostar”, amar mais que tudo, e depois dor, solidão, vazio, e mais dor. Porém hoje sabemos nomear cada nuança, porque já se tornou algo intrínseco que cresceu com nosso amadurecimento de mente, corpo e alma.
    Uau, ta gigante esse comentário hahaha me empolguei. Enfim moço, belíssimo texto! Nostálgico, sincero e como sempre, excelente. Eu tenho orgulho de tê-lo aqui no blog, suas palavras simplesmente nos enchem de sentimentos, sonhos, mexem com quem lê! Sou sua fã \o/ mas disso, vc também já sabe! Beijão!!!

    Daiane (a chefa) hahahahahhahahaa

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  2. Quanto amor em suas palavras!
    Me fez lembrar da minha própria juventude.Quando a gente ama demais e inocentemente. Mas o tempo passa e resta apenas as lembranças.
    Gostei muito!

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  3. Que lindo! O primeiro amor a gente nunca esquece. É um sentimento tão puro e ao mesmo tempo tão forte. Parabéns pelo texto, você me fez lembrar do meu primeiro amor.

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  4. que texto lindo! adorei como você sintetizou o primeiro amor: arrebatador, singelo, inesquecível
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  5. Neilalbert o senhor escreve muitissimo bem, adorei me deliciar com suas palavras e se posso dizer mais eu ficaria horas e horas lendo suas linhas. acredito que o mundo precisa de mais palavras escritas, sentimentos aflorados e menos mimimi. Parabésn!

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  6. Nossa. Que amor lindo e texto fantástico.

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  7. Muito bom este texto, parabéns! Infelizmente o amor e a dor muitas vezes se encontram e constroem a história de vida de um casal. Faz parte da vida.
    Bjs, Rose.

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