Resenha: O tempo é um rio que corre

by - quinta-feira, setembro 04, 2014

Autora: Lya Luft
Páginas: 141
Ano: 2014
Editora: Record

Lya Luft lança um poderoso livro, que faz o leitor refletir sobre nosso mais precioso bem: o tempo. Logo no título a força e a beleza do texto se anunciam. "O tempo é um rio que corre" ininterruptamente, afinal, da nascente até a foz, não há desembocadura que pare o rio e seu curso de água natural. Sempre caudaloso, torrencial, porém jamais imóvel. Se só o título já suscita tanta reflexão, é certo que essa leitura tem capacidade de mudar a vida e o pensamento de muita gente. Ao mesclar memória e reflexões sobre a passagem do tempo, Lya cria um pungente ensaio sobre as relações humanas, a infância, a juventude, o amadurecimento e a morte, e o valor da vida, temas e inquietações que são sua especialidade. O livro é divido em três partes — Águas mansas, Marés altas e A embocadura do rio, mostrando como é a passagem do tempo nas diferentes etapas da vida e buscando caminhos para usufruir o que há de melhor em cada uma delas. Em uma era marcada pela suposta falta de tempo, esta obra é uma importante reflexão sobre a cultura da futilidade e da eterna juventude em que vivemos. 

Acredito que alguns livros exigem de nós leitores um momento certo para lê-lo. Sabemos que a literatura é uma arte que dialoga com ser humano em diferentes níveis. Não são somente palavras que silenciosamente nos saltam aos olhos, elas carregam em suas entrelinhas significados e essências que nos tocam a alma, provocam nossos sentimentos e fazem-nos ter reflexos de nossas próprias vidas.

Assim foi com “O tempo é o rio que corre” de Lya Luft, seu talento é inquestionável, uma das autoras brasileiras de maiores renomes dentro da literatura clássica contemporânea. Ao ler a sinopse, eu sabia que haveria um momento certo para lê-lo e assim foi. Em algumas tardes, mesmo o livro sendo curtinho resolvi degustar sua leitura aos poucos, peguei-me refletindo com os textos e poesias presentes na obra.

Evocando algumas memórias e mesclando com alguns pensamentos, a metáfora do tempo como um rio é perfeitamente entrelaçada a cada página. Luft como uma artesã tece com suas palavras uma rede de memórias e pensamentos, todos interligados pelo objeto “tempo”. Mostrando sua sutileza, sua face efêmera e ao mesmo tempo eterna, já que o mesmo passa e como um rio nele nos transformamos fluindo pelas correntes da vida, que não param.

"Uma distração qualquer, e a mão que se estende chega tarde, o pulso já fora cortado; por um fio, por um minuto, o avião havia partido, o telefone estava fora do gancho. Foi egoísmo nosso, futilidade, aridez? Descartamos o que não faz parte do nosso mundo. Porque somos perversos? 
Porque somos humanos. 
(Pensar dói)."

A narrativa da autora tem uma doçura deliciosa, uma voz íntima que fala diretamente ao coração do leitor. A leveza da escrita, mesclada a memórias e sentimentos reais, transmite-nos uma calmaria e uma sensação de reconhecimento. Dificilmente paramos para pensar sobre o tempo, já que o mesmo pode causar medo. Ver a ampulheta de nossa vida escorrendo a areia de momentos que não voltarão, nos faz pensar o quanto tudo está passando, e no valor de nossa existência. O tic-tac do relógio contando nossos minutos aponta-nos de forma acusadora seu ponteiro, enquanto gira questionando-nos sobre o que estamos fazendo nesse instante, e o que estamos esperando para realmente viver, e não somente deixar que os dias passem.

Ao terminar a leitura a sensação que tive foi de paz, tendo a certeza de que não há melhor tempo que o agora. Podemos eternizar cada momento, ou simplesmente passar por eles sem perceber. Dar valor ao tempo que se tem, utilizando-o da melhor maneira possível é enfim a aprender a viver. Amores que vem e se vão, sorrisos, lágrimas, e depois novos sorrisos, a doçura de uma paixão e a solidão de um adeus, a alegria de um nascimento e a dor perante uma partida não esperada, tudo isso é somente a vida dando seu show, mostrando que viver é estar à margem de todos os sentimentos, é abrir a alma para o mundo, ser tudo e nada ao mesmo tempo, é perder-se e sempre saber onde se encontrar: em você mesmo.

O tempo é um rio que corre, vai de nós saber seguir o fluxo. Você escolhe se lutará contra a correnteza, se deixará se afogar, ou simplesmente se entregar, deixando que as águas o guiem para onde elas quiserem te levar.

Livro recomendado para quem quer uma obra reflexiva, porém que o deseje ler, pois como no abordei no início, algumas leituras exigem de nós o momento certo. Se você acredita que está nesse momento, parabéns! Se não, ainda assim vale a pena tê-lo na estante, pois este é aquele tipo de livro que não devem ser lidos apenas uma vez e esquecidos, em algum momento ele vai te chamar, e a cada nova leitura haverá novas descobertas e novos sentimentos despertos.

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3 comentários

  1. Oi, Daiane! Eu quero muito comprar esse livro pra minha mãe, acho que talvez seja o momento dela hahahaahha e aí eu pego emprestado, claro :P

    Beijos
    Nati

    www.meninadelivro.com.br

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  2. não conhecia esse livro, mas ja li muitos artigos da Lya e sei de seu potencial!
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  3. Oi Daiane adoro livros assim iria adorar ler com certeza já tenho alguns no mesmo estilo e são ótimos para repensar na vida !

    Amei sua resenha e adorei ter te conhecido na bienal do livro :)

    Beijos

    www.livrosechocolatequente.com.br

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