[Divagações] Quando se perde o medo do escuro

by - quarta-feira, março 11, 2015


Houve um tempo em que o escuro era algo tão temido por mim. Dentro de minha ingenuidade tinha medo do que poderia se esconder nas sombras, como se ali todos os pesadelos pudessem tomar forma para me ferir. E hoje, dentro da mesma escuridão não consigo parar de pensar o quanto ela me reconforta. O que antes dava medo, agora me intriga, inspira, me faz conectar com uma parte de mim mesma que eu sequer conhecia.

Dentro de uma noite fria, vejo palavras saindo de dentro de mim para uma composição melancólica. Enquanto tiro notas tristes de um violão velho, sussurrando uma canção proibida, sinto a alma ganhando impulso e traçando novos sonhos. Todos os amores enterrados em lembranças em preto e branco, enquanto sentimentos ganham forma e vazam do coração de alguém que já amou demais.

Sombras me envolvem e me acolhem para dentro de braços gélidos e estranhamente reconfortantes. Vejo minha mente se libertando de todos seus temores. Vejo um mundo se acender dentro de luzes, e tal qual um gato solitário caminho por ruas vazias embriagando-me de estrelas. Sendo espionada por um céu sem lua, ando com a alma nua.

Atrás de uma cortina clara penso em como o vento acaricia sua pele, e sinto inveja. Penso nele como meus dedos tocando seu cabelo suavemente, selando com um beijo gelado meu boa noite sonhado.

Subo as escadas barulhentas, lhe mostro minha música, te faço adormecer com uma canção boba, mas isso só acontece em minha imaginação. Pois ainda estou aqui do outro lado, apenas desejando sentir seu desejo, te usar para protagonizar meu momento.

Desculpe-me se minhas palavras lhe atormentam, é que a noite exerce esse efeito, e a escuridão tira de mim tudo aquilo que durante o dia eu escondi. Traz para fora toda essa bagunça desordenada, que aos poucos cria forma em sua beleza desforme.

Sou apenas uma alma correndo por ruas feitas de pecado, um vulto dentro das sombras, uma nota caída de uma música cadenciada, um ritmo constante que tenta seguir em sintonia com o próprio coração, mesmo que este às vezes este bata em descompasso com o seu.

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1 comentários

  1. que texto! meu pai, como vc sabe organizar as palavras de forma a criar sensações, isso é um dom!
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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