Resenha: Tua

by - sexta-feira, março 27, 2015

Autora: Claudia Piñeiro
Páginas: 140
Ano: 2015
Editora: Verus

Inés está convencida de que toda mulher, em algum momento, será traída. Assim, não fica tão surpresa quando encontra um bilhete nas coisas de Ernesto, seu marido — um coração desenhado com batom vermelho, escrito “te amo” e assinado “Tua”. Porém, quando Inés percebe que a traição do marido vai muito além do que ela pensava, trama um plano de vingança do qual não haverá volta.
Tua é um romance policial vertiginoso, mas também um retrato implacável da vida íntima da classe média. Claudia Piñeiro capta com genialidade as vozes da sociedade contemporânea, entre elas a de uma dona de casa disposta a qualquer coisa para manter as aparências.

O que me chamou a atenção para ler Tua foi sua premissa simples. Uma traição, uma mulher convicta de que às vezes isso pode ser normal, e que vive sob as aparências de uma família perfeita. Em nenhum momento é prometido uma reviravolta de tirar o fôlego, e nem precisaria, pois quer surpresa melhor do que lidar com os sentimentos humanos inatos dentro de uma trama que os expõem tão claramente?

Inés é quase uma personagem cômica, não por ser engraçada, mas por ser tão ingênua (ou não) e maquiar um mundo de fantasia próprio. Porém essa faixa de comicidade cai aos poucos, dando vasão a uma mulher inteligente, e capaz de tudo para blindar sua família e apagar as possíveis manchas que queriam aparecer sobre essa superfície de perfeição que ela mantém tão bem. A filha adolescente também enfrenta certo drama, uma morte inesperada, o marido com jeitinho inocente, ou simplesmente manipulador? E a Tua...

Definitivamente Piñeiro compôs seus personagens com muitas faces, e mesmo que suas atitudes algumas vezes nos surpreendam, essa sensação logo passa, como se pudéssemos esperar isso, entendem? Como no dia a dia em que às vezes nos surpreendemos com algumas ações, mas de certa já a esperávamos. Muitas vezes humanos podem ser totalmente previsíveis mesmo em suas imprevisibilidades.

Aos poucos o jogo vai virando, a emoção e a razão em pequenos detalhes se conflitando. É um suspense psicológico tão envolvente, que não há como não sentir certo medo ou ficar apreensivo sobre qual seria o próximo passo de cada personagem. Como em um jogo a autora os conduz em seu tabuleiro de vidro, com cada movimento calculado, e cada mente com um objetivo, enquanto aos poucos o chão se racha.

Tua é como uma saliva que se acumula na gargante e não desce, é aquela tosse presa, um fiapo no lugar errado, é a realidade que incomoda. Um suspense com um toque feminino, em que as emoções humanas lançam suas cartas em um enredo bem estruturado, regado a um humor que arrepia pela sua acidez, mesmo que este se apresente como uma camada delicada.

O desfecho foi real, nada muito fora do normal, porém são nas últimas linhas que o suspense se encerra com chave de ouro, e a meu ver em duas ou três palavras conseguem definir implicitamente tudo que este livro quis passar. Para quem gosta de livros que conseguem traspor a alma humana em histórias amargas e desnuda uma sociedade baseada em aparências, Tua é perfeito. Um suspense mais que recomendado, pois envolve e deixa o gostinho de um tapa na cara dado por uma mão enluvada.

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1 comentários

  1. esses personagens que vão se recriando ao longo da história, se mostrando aos poucos sempre tem algo a agregar, tornam a história mais envolvente
    Quando der, de uma passada no blog, adorarei sua visitinha!
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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Blog no ar desde 08/11/2011

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