Resenha: A Hora da Estrela

by - domingo, janeiro 03, 2016

Autora: Clarice Lispector
Páginas: 88
Ano: 1998
Editora: Rocco

A história da nordestina Macabéa é contada passo a passo por seu autor, o escritor Rodrigo S.M. (um alter-ego de Clarice Lispector), de um modo que os leitores acompanhem o seu processo de criação. À medida que mostra esta alagoana, órfã de pai e mãe, criada por uma tia, desprovida de qualquer encanto, incapaz de comunicar-se com os outros, ele conhece um pouco mais sua própria identidade. A descrição do dia-a-dia de Macabéa na cidade do Rio de Janeiro como datilógrafa, o namoro com Olímpico de Jesus, seu relacionamento com o patrão e com a colega Glória e o encontro final com a cartomante estão sempre acompanhados por convites constantes ao leitor para ver com o autor de que matéria é feita a vida de um ser humano.

Certamente você já deve ter ouvido falar em a Hora da Estrela durante sua trajetória escolar, e também da sua autora, Clarice Lispector. Não precisarei ir muito adiante sobre a Clarice em si, acredito que a designação “uma das maiores poetisas da literatura brasileira” já seja o suficiente para entendermos a magnitude de suas obras.

Seu talento inquestionável para poesia também se fez presente em seus romances, como em A Hora da Estrela, o último escrito pela autora antes do seu falecimento. Nesta obra, Clarice decidiu escrever um romance mais idealista, não que seus escritos não abordassem de certa forma os sentimentos humanos e nestes a realidade se fizesse presente, mas os críticos ainda esperavam algo mais “evidente”, e então esta se dispôs a escrevê-lo, o que claro, foi um belo tapa na cara dos famosos críticos literários.

Macabéa, protagonista do romance, é uma mulher tão real e ao mesmo tão inexpressiva, que não consegue ter uma visão sobre si mesma, é vazia, “judiada”, como se apenas existisse e não vivesse. Nascida no interior de Alagoas, o narrador a apresenta como “incompetente para a vida”, a qua possuía como diversão ouvir um rádio relógio que relatava a hora certa e cultura, o que de certa forma não a ajudava, pois a mesma nem sabia o que fazer com esta.

O personagem-narrador, que se apresenta como Rodrigo S. M., narra as dificuldades de escrever de elaborar a obra e como Macabéa lhe pesa nos ombros. Ao mesmo tempo que fala sobre si mesmo, ele nos conta a história da personagem, e vemos aí não somente um, mas dois protagonistas paralelos, mas perfeitamente interligados. 

Assim a metalinguística é perfeitamente encaixada na narrativa, gerando um elo entre as linhas narrativas e as combinando, nos levando a perceber que para Rodrigo escrever sobre Macabéa é como escrever sobre si mesmo, duas existências insossas no palco da vida.

O final trágico mostra a vida da personagem se encerrando de forma abrupta, depois de pela primeira vez na vida ter sentido um leve sopro de esperança para o seu futuro através das palavras de uma cartomante. Mas, ao ser atropelada por uma Mercedes e falecer, somos levados a refletir que o futuro, dele nada sabemos, e restam somente interrogações. Macabéa, teve em seu fim, um momento de atenção, onde foi notada, e como a mesma pensou “primeiro dia de minha vida – nasci”, e o autor afirmou “ela nascera para o abraço da morte”, assim como todos nós. Definitivamente, foi a hora da estrela!

É uma obra clássica, se você ainda não leu este romance de Clarice, pois então coloque em sua lista. Uma literatura rica que somos instigados a pensar, e apreciar mais um romance incrível desta que é um dos ícones da nossa literatura. Esta edição da Editora Rocco está bela, e recomendo a leitura também das outras obras nas edições que a editora lançou.

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